O senso comum pode indicar que o primeiro passo para alfabetizar uma criança é ensinar a ela como identificar as letras. Essa ideia está equivocada, porque não leva em conta que, muito mais do que uma representação gráfica, a letra representa fundamentalmente um som. Na verdade, tudo começa com um outro processo: o de tomada de consciência fonológica.

É importante destacar que a noção de linguagem falada (composta de sequências de pequenos sons) não é algo que surge de forma natural ou fácil. Somar uma letra a outra, formar uma sílaba, daí uma palavra, e assim por diante. É, sobretudo, um mecanismo de aprendizado.

O som é a chave de ignição de todo esse processo, que nada mais é do que uma tomada de consciência desses mecanismos da língua. E essa consciência fonológica é a habilidade do falante de manipular os sons de uma língua, ou seja, é o desenvolvimento de uma competência que permite a ele identificar, manipular e refletir sobre os sons da fala.

É também a capacidade de entender, antes mesmo de adquirir qualquer compreensão do princípio alfabético, que os sons que se associam às letras não são exatamente os mesmos sons da fala.

É, ainda, a possibilidade de perceber que a linguagem falada pode ser repartida em várias unidades, ou seja, que a frase pode ser dividida em palavras, as palavras em sílabas e as sílabas em fonemas. Por meio dela, percebemos ainda que o mesmo som pode começar ou terminar palavras diferentes e que há frases e orações.

Tudo começa aos 3 ou 4 anos de idade

Antes mesmo dessa fase da vida, supõe-se que as crianças já tenham desenvolvido a capacidade de discriminação auditiva, ou seja, que elas consigam distinguir os diferentes sons do ambiente e da fala.

Mas é a partir dos 3 ou 4 anos que elas começam a ser capazes de dividir e juntar sílabas, de se envolver em jogos de rimas e de inventar palavras. A partir desse período, portanto, a criança já pode tomar consciência fonológica – e os pais e a escola pode ajudar muito, por meio de processos que trabalhem categorias de brinquedos, cores e o próprio corpo humano.

Espera-se que somente a partir dos 6 anos a criança domine todos os níveis da consciência fonológica.

O desenvolvimento é feito em etapas

Como vimos, a tomada de consciência fonológica precede a alfabetização e aprender o som da letra não é tudo. É só o início da jornada para adquirir a habilidade de leitura e escrita. Antes de chegar ao fim, há muitas etapas.

A letra é um dos instrumentos de linguagem que a criança deve aprender. Rimar é outro. A rima usa uma característica bem particular da língua: sua expressão sonora. Esse recurso ajuda a aumentar o vocabulário da criança ao parear palavras com finais parecidos, mesmo que a grafia das palavras não seja idêntica.

A tarefa de aprender ortografia é posterior (a partir do Ensino Fundamental) e dependente da aquisição de consciência fonológica. Por isso é fundamental que pais e professores fiquem atentos a sinais de alerta sobre deficiências nessa fase.

Durante a pré-escola, por exemplo, um dos sinais mais evidentes de problemas de absorção dessa consciência é a dificuldade de aprender e decorar canções e rimas. Fala tardia, linguagem muito infantil e dificuldades em pronunciar corretamente palavras também são indícios fortes.

Depois disso, já no início do Fundamental, é possível que a criança tenha dificuldades em detectar e discriminar os sons da língua (por exemplo quando a criança não identifica diferenças ao ouvir palavras como “faca” e “vaca”), em dividir palavras em sílabas e fonemas ou ainda em associar as letras aos seus sons.

Seja qual for o problema apresentado, é recomendável buscar um fonoaudiólogo para trabalhar junto aos pais e professores.

A BNCC e a centralidade do texto

Articular as diferentes facetas da apropriação da língua escrita é o maior desafio imposto pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que deve ser aplicada em todo o sistema de Educação do Brasil, mesmo antes da alfabetização.

Portanto é fundamental que a etapa de consciência fonológica se dê integralmente para que a tarefa dos educadores de fazer com que as práticas sociais de leitura e escrita sejam conectadas à aprendizagem do sistema de escrita alfabética, ou seja, deem-lhes o contexto necessário para trabalhar textos, aconteçam sem sobressaltos.

Nesse caminho, a BNCC colocou mais uma questão relevante: a do multiletramento. Sobre isso, não se pode ter susto: trata-se apenas de um jeito de trazer para o processo de alfabetização os textos que estão presentes no dia a dia da criança. Das cantigas de roda a conversas com a família, vídeos e jogos, tudo é válido para expor a criança ao maior número possível de formas de expressão textual.

É possível ainda lançar mão de vários outros recursos: imagens, pinturas, livros com formas diversas de leitura, diagramas, ilustrações sofisticadas e infográficos podem ser apresentados aos pequenos. Dá para ler, ouvir, cantar, jogar, discutir e brincar com a língua junto com as crianças, sempre com uma intencionalidade clara por trás: conduzi-los a refletir sobre a correspondência entre o oral e o escrito.

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