Como alfabetizar uma criança que apresente sinais de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH)? Bem, de início, é sempre bom deixar claro que, embora a síndrome traga desafios, ela não implica a impossibilidade de atuar junto à criança em prol de sua alfabetização.

Os alunos que apresentam os sintomas característicos desse distúrbio neurobiológico precisam do estímulo certo para aprender, caso contrário o resultado poderá ser um baixo aproveitamento escolar. Neste artigo, vamos apresentar algumas estratégias para trabalhar com esse grupo de estudantes. Vejamos!

O que é o TDAH?

Trata-se de um distúrbio crônico que acomete entre 3 e 5% da população em idade escolar, de acordo com dados da Associação Brasileira de Déficit de Atenção (ABDA), divulgados pelo Ministério da Saúde. O TDAH é caracterizado pela dificuldade de se concentrar, de controlar os impulsos e pela hiperatividade.

O indivíduo não consegue prestar atenção ou ficar sentado por muito tempo. Além de sinais de inquietação e impaciência, ele dificilmente espera a vez do colega ou da professora explicar.

Os desafios que as crianças com TDAH podem encontrar durante o processo de alfabetização estão relacionados a inúmeras questões. Porém, o problema não tem origem nas habilidades de linguagem, e sim na atenção propriamente dita, o que torna a alfabetização mais fácil comparada com a dislexia, por exemplo.

Além do déficit de atenção, o indivíduo apresenta baixos níveis de motivação em tarefas monótonas e problemas de autorregulação de ordem comportamental, cognitiva e emocional.

A chamada “memória de trabalho”, que envolve tanto o armazenamento dos sons como o de sílabas e palavras, é restrita, e isso pode ainda atrapalhar a decodificação das palavras e a compreensão de leitura.

Há casos em que a pessoa acumula comorbidades, associando mais de um transtorno, como dislexia e Transtorno Opositivo Desafiador (TOD), que geralmente ocorre durante a infância e envolve comportamentos frequentes de raiva, agressividade, vingança, desafio, provocação, desobediência ou ressentimento.

3 eixos estratégicos para alfabetização

Os educadores podem dividir as estratégias pedagógicas em três eixos de ação. O objetivo é aproximar o estudante dos conteúdos expostos no contexto escolar para potencializar a alfabetização. Essas três linhas de abordagem são:

Didática em sala de aula

A meta é buscar técnicas que estimulem a concentração do aluno. Isso pode ser feito pela mudança do tom de voz, trabalhado de acordo com a necessidade, dando ênfase em momentos mais importantes do assunto, ou ainda ficar bem próximo do aluno, para reduzir as distrações potenciais.

Vale ainda começar a aula com algum tipo de técnica de motivação, como fazer perguntas que possam ser respondidas somente depois da explicação do conteúdo, e associar o assunto da aula a alguma situação do contexto que interessa ao aluno ou que tenha uma aplicação prática. O elogio à boa resposta do estudante também é bem-vindo.

As tarefas que envolvem memorização, pensamento e raciocínio lógico são uma das soluções criativas mais recomendáveis para engajar alunos com TDAH. Lance mão, por exemplo, de tarefas de raciocínio, como palavras cruzadas, jogos de cartas, memória e quebra-cabeças; apresente a eles imagens, palavras diversas e números.

A utilização de estímulos audiovisuais ou sensoriais contribui também para a memorização, visto que dicas e exemplos visuais funcionam bem. Você pode tentar ensinar uma letra, mostrando de forma bem clara e objetiva a imagem dessa letra. Quando as crianças começarem seu trabalho independente, deixe os pontos-chave sobre um tópico visíveis em um quadro.

Teatro e jogos de faz de conta são práticas pedagógicas que dão mais certo quando o assunto é entreter e educar os alunos, por estimular a imaginação. Pode-se ainda propor às crianças que façam mímicas de animais, pessoas e super-heróis.

Meios de avaliação

É bom lembrar que, apesar de a distração de uma criança com déficit de atenção ser frequente, o que importa mesmo é sua capacidade de acumular conhecimento. A criança pode ter um ritmo mais lento na execução das atividades, então, uma forma de auxiliá-la é dar mais tempo para a finalizar as tarefas.

Nesse cenário, as clássicas provas objetivas parecem não ser o melhor caminho para avaliar um aluno com déficit de atenção, mas, se este for o caso, pense em ler em voz alta a prova antes de correr o tempo – isso facilita a compreensão das questões. Você pode ainda procurar avaliá-lo com trabalhos, pesquisas de campo, apresentações em sala, participação em discussões etc.

Apoio organizacional

O professor também pode ajudar criando uma rotina preestabelecida, uma espécie de roteiro, a ser seguida repetida e diariamente. Distribua somente uma tarefa por vez. Isso ajuda a criança com déficit de atenção a ajustar o foco, a reduzir a frustração e a aprender melhor.

Os especialistas também recomendam apostar no inusitado e criar oportunidades de aprendizagem nas quais a criança vivencie algo pela primeira vez. Por exemplo: ensine palavras novas enquanto faz a lista de compras do supermercado.

É com atividades que já estão incorporadas ao cotidiano que se pode ajudar uma criança com TDAH a se desenvolver durante o processo de alfabetização. Simples não é. Mas recompensador, sem dúvida será.

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Gostou do artigo? Então, vale a pena aprofundar seus conhecimentos com o Guia da Alfabetização.