Uma redação nota mil no Enem tornou-se o sonho de muitos jovens brasileiros nos últimos anos. No entanto, escrever uma boa redação dissertativa-argumentativa nesse exame vai muito além de escrever de forma coerente e sem erros de português.

A banca do Enem possui regras bem específicas, e você deve conhecê-las para não perder ponto à toa. Portanto, veja a seguir como você será avaliado e as principais dicas que o Clube separou para você fazer uma redação nota mil no Enem!

Conheça as cinco competências do Enem 

As competências do Enem são os critérios que norteiam a avaliação da sua redação pela banca examinadora. Para cada competência, o corretor aplica uma nota de 1 a 5, sendo:

1 – Descumprimento total da competência;

5 – Desenvolvimento pleno da competência.

Vejamos cada uma.

Competência I: Demonstrar domínio da modalidade escrita formal da Língua Portuguesa

A primeira competência da Matriz de Referência do Enem avalia o domínio que o candidato possui da norma culta da Língua Portuguesa. Na prática, o que a banca espera do candidato é um léxico variado, respeito à ortografia e boas estruturas sintáticas, a fim de garantir uma leitura fluida e clara.

Contudo, é importante não confundir léxico variado, que é um amplo conhecimento e emprego de palavras, com preciosismo linguístico!

O preciosismo é um vício de linguagem que consiste no uso excessivo de palavras rebuscadas e não usuais, o famoso “falar difícil”. Muitos pensam que isso automaticamente passa certa credibilidade e demonstra domínio da língua, enquanto, na verdade, esses vocábulos afastam a clareza e a inteligibilidade imediata do leitor. Portanto, evite correr riscos e aposte numa linguagem simples, porém correta.

No mais, preocupe-se principalmente com a forma como seus períodos são construídos, certificando-se de que eles estão completos e contribuem para a fluidez da leitura. De modo geral, prefira orações na ordem direta e períodos curtos, entre duas e três linhas, no máximo. 

De qualquer forma, para dominar esta competência, não há outro caminho a não ser muita leitura e estudo da gramática normativa.

Competência II: Compreender a proposta de redação e aplicar conceitos das várias áreas do conhecimento para desenvolver o tema, dentro dos limites estruturais do texto dissertativo-argumentativo em prosa

Esta é a competência que trata do tema e da tipologia textual.

1. Sobre a tipologia textual

Primeiramente, vamos entender a tipologia textual em que está inserida a redação do Enem. Ela é classificada como texto dissertativo-argumentativo, o qual apresenta os posicionamentos pessoais do autor em relação a um tema. Logo, seu principal objetivo é a defesa de um ponto de vista, o que deve ser feito por meio de linguagem persuasiva e estratégias argumentativas bem fundamentadas.

No caso da redação do Enem, além dessas características básicas da tipologia dissertativa-argumentativa, a prova também apresenta algumas particularidades, exemplos:

– Discurso em terceira pessoa, pois privilegia estruturas impessoais em vez de juízos de valor ou sentimentos exaltados;

– É comum verbos no presente do indicativo ou no futuro do presente para dar um caráter verdadeiro e atemporal ao texto;

– É necessário falar de um único tema, respeitando a progressão temática;

– Apresenta estrutura básica: introdução, desenvolvimento e conclusão;

– Deve apresentar proposta de intervenção para a situação-problema.

2. Sobre o tema

Para ter uma redação nota mil, é imprescindível que você entenda perfeitamente o tema e escreva a sua redação com ele na cabeça do início ao fim. Fuga total ou parcial à temática proposta pode, até mesmo, zerar a sua redação.

Como sabemos, é impossível descobrir o tema da redação do próximo Enem antes da prova. No entanto, já é de conhecimento de todos que, com certeza, ele será um problema a ser resolvido, visto que a Competência V exige uma proposta de intervenção.

Ao desenvolver o tema, espera-se que o candidato traga referências e argumentos do seu repertório sociocultural. Entretanto, serão penalizados aqueles que apresentarem repertório a partir de cópia dos textos motivadores. 

Competência III: Selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações, fatos, opiniões e argumentos em defesa de um ponto de vista

Este descritor avalia a capacidade do participante de:

Selecionar os argumentos, dados e opiniões mais adequados;

Organizá-los de forma clara e estratégica, definindo quais são as ideias principais e quais são as ideias complementares a elas;

Relacionar e organizar as informações no texto, encadeando as ideias de forma progressiva;

– E interpretar corretamente essas informações, contextualizando-as em relação ao tema para realizar a defesa do ponto de vista.

Neste caso, recomendamos que você elabore um projeto de texto antes de começar a escrever.

Ainda na folha de rascunho, escreva seus argumentos, dados, citações e opiniões em forma de tópicos. Em seguida, faça uma análise criteriosa dessas informações e pergunte-se:

“O que não pode faltar de jeito nenhum no meu texto?”

“O que complementa essas informações que são primordiais?”

“Em qual ordem irei dispor tudo isso?”

“Como irei conectar todas essas ideias?”

Por fim, descarte o que sobrar e inicie a construção do seu texto.

Competência IV: Demonstrar conhecimento dos mecanismos linguísticos necessários para a construção da argumentação

O que se avalia nesta competência é a utilização dos recursos coesivos para articular os enunciados textuais. Ou seja, é a estruturação lógica e formal dos períodos e parágrafos.

Para um bom encadeamento das ideias, é indispensável o estudo dos conectivos lógico-semânticos, os quais podem ser: conjunções (principalmente), advérbios, locuções adverbiais, preposições e pronomes.

Competência V: Elaborar proposta de intervenção para o problema abordado, respeitando os direitos humanos

Como já mencionamos, toda proposta de redação do Enem nos traz uma situação-problema, à qual devemos apresentar uma proposta de intervenção, isto é, uma solução. Logo não cabe apresentar apenas pontos positivos sobre o tema. 

Assim sendo, seu texto deve apresentar uma proposta de intervenção detalhada, que respeite os direitos humanos e especifique o que fazer, como fazer, quem deve fazer e para que irá fazer, tornando, assim, a proposta viável. 

Estrutura da redação dissertativa-argumentativa do Enem

A sua redação do Enem deve ser estruturada em três partes: introdução, desenvolvimento e conclusão.

1. Introdução:

A introdução é o primeiro parágrafo do seu texto e precisa apresentar o tema e a sua tese. A tese é o seu posicionamento perante o tema e deve ser resumida numa sentença. Portanto, tenha uma tese bem definida, pois o corretor, ainda na introdução, necessita saber perfeitamente o que você está defendendo. Ademais, ela será o fio condutor de toda a sua argumentação no decorrer da redação. 

Como é preciso fechar o texto com uma proposta de intervenção, também já deixe claro logo de início que a situação é um problema com possibilidade de solução. Do contrário, você não terá o que resolver na conclusão.

2. Desenvolvimento

O desenvolvimento começa no segundo parágrafo, no entanto não há uma regra que explicite quantos parágrafos ele deve ter ao todo. De modo geral, recomenda-se escrever dois ou três, no máximo.

A primeira sentença de cada um desses parágrafos deve ser um tópico frasal, o qual sintetiza toda a ideia do que está por vir. Quanto ao conteúdo, apresente os argumentos, dados, citações e opiniões que justifiquem a sua tese, mas garanta que as suas fontes são confiáveis e relevantes.

3. Conclusão

A conclusão é o último parágrafo da sua redação. Nela, retome todos os problemas que você apresentou no decorrer do texto, mas não traga problemas novos, visto que essa parte não é dedicada para isso. 

É aqui que você deve expor a proposta de intervenção (solução) para a situação-problema abordada em todo o texto. Dessa forma, garanta que você tenha respondido às perguntas da Competência V: o que, como, quem e para que fazer.

O que pode zerar uma redação do Enem?

De acordo com o Inep, instituto responsável pela elaboração da prova:

“Receberá nota zero, em qualquer das situações expressas a seguir, a redação que:

– tiver até 7 (sete) linhas escritas, sendo considerada ‘texto insuficiente’.

– fugir ao tema ou que não atender ao tipo dissertativo-argumentativo.

– apresentar parte do texto deliberadamente desconectada do tema proposto.

– apresentar nome, assinatura, rubrica ou outras formas de identificação no espaço destinado ao texto.”

3 exemplos de redação nota mil

Confira abaixo 3 exemplos de redação que alcançaram a nota mil no Enem de 2020.

1) Redação nota 1.000 de Isabella Gadelha, PA

Redação nota mil enem I.
Fonte: G1

Nise da Silveira foi uma renomada psiquiatra brasileira que, indo contra a comunidade médica tradicional da sua época, lutou a favor de um tratamento humanizado para pessoas com transtornos psicológicos. No contexto nacional atual, indivíduos com patologias mentais ainda sofrem com diversos estigmas criados. Isso ocorre, pois faltam informações corretas sobre o assunto e, também, existe uma carência de representatividade desse grupo nas mídias.

Primariamente, vale ressaltar que a ignorância é uma das principais causas da criação de preconceitos contra portadores de doenças psiquiátricas. Sob essa ótica, o pintor holandês Vincent Van Gogh foi alvo de agressões físicas e psicológicas por sofrer de transtornos neurológicos e não possuir o tratamento adequado. O ocorrido com o artista pode ser presenciado no corpo social brasileiro, visto que, apesar de uma parcela significativa da população lidar com alguma patologia mental, ainda são propagadas informações incorretas sobre o tema. Esse processo fortalece a ideia de que integrantes não são capazes de conviver em sociedade, reforçando estigmas antigos e criando novos. Dessa forma, a ignorância contribui para a estigmatização desses indivíduos e prejudica o coletivo.

Ademais, a carência de representatividade nos veículos midiáticos fomenta o preconceito contra pessoas com distúrbios psicológicos. Nesse sentido, a série de televisão da emissora HBO, “Euphoria”, mostra as dificuldades de conviver com Transtorno Afetivo Bipolar (TAB), ilustrado pela protagonista Rue, que possui a doença. A série é um exemplo de representação desse grupo, nas artes, falando sobre a doença de maneira responsável. Contudo, ainda é pouca a representatividade desses indivíduos em livros, filmes e séries, que quando possuem um papel, muitas vezes, são personagens secundários e não há um aprofundamento de sua história. Desse modo, esse processo agrava os esteriótipos contra essas pessoas e afeta sua autoestima, pois eles não se sentem representados.

Portanto, faz-se imprescindível que a mídia – instrumento de ampla abrangência – informe a sociedade a respeito dessas doenças e sobre como conviver com pessoas portadoras, por meio de comerciais periódicos nas redes sociais e debates televisivos, a fim de formar cidadãos informados. Paralelamente, o Estado – principal promotor da harmonia social – deve promover a representatividade de pessoas com transtornos mentais nas artes, por intermédio de incentivos monetários para produzir obras sobre o tema, com o fato de amenizar o problema. Assim, o corpo civil será mais educado e os estigmas contra indivíduos com patologias mentais não serão uma realidade do Brasil.”

2) Redação nota 1.000 de Julia Vieira, MA

Fonte: G1

“No filme estadunidense “Coringa”, o personagem principal, Arthur Fleck, sofre de um transtorno mental que o faz ter episódios de riso exagerado e descontrolado em público, motivo pelo qual é frequentemente atacado nas ruas. Em consonância com a realidade de Arthur, está a de muitos cidadãos, já que o estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira ainda configura um desafio a ser sanado. Isso ocorre, seja pela negligência governamental nesse âmbito, seja pela discriminação desta classe por parcela da população verde-amarela. Dessa maneira, é imperioso que essa chaga social seja resolvida, a fim de que o longa norte-americano não mais reflita o contexto atual da nação.

Nessa perspectiva, acerca da lógica referente aos transtornos da mente, é válido retomar o aspecto supracitado quanto à omissão estatal neste caso. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), o Brasil é o país que apresenta o maior número de casos de depressão da América Latina e, mesmo diante desse cenário alarmante, os tratamentos às doenças mentais, quando oferecidos, não são, na maioria das vezes, eficazes. Isso acontece pela falta de investimento público em centros especializados no cuidado para com essas condições. Consequentemente, muitos portadores, sobretudo aqueles de menor renda, não são devidamente tratados, contribuindo para sua progressiva marginalização perante o corpo social. Este quadro de inoperância das esferas de poder exemplifica a teoria das Instituições Zumbis, do sociólogo Zygmunt Bauman, que as descreve como presentes na sociedade, mas que não cumprem seu papel com eficácia. Desse modo, é imprescindível que, para a refutação da teoria do estudioso polonês, essa problemática seja revertida.

Paralelamente ao descaso das esferas governamentais nessa questão, é fundamental o debate acerca da aversão de parte dos civis ao grupo em pauta, uma vez que ambos são impasses para sua completa socialização. Esse preconceito se dá pelos errôneos ideais de felicidade disseminados na sociedade como metas universais. Entretanto, essas concepções segregam os indivíduos entre os “fortes” e os “fracos”, em que tais fracos, geralmente, integram a classe em discussão, dado que não atingem essas metas estabelecidas, como a estabilidade emocional. Por conseguinte, aqueles que não alcançam os objetivos são estigmatizados e excluídos do tecido social. Tal conjuntura segregacionista – os que possuem algum tipo de transtorno, nesse caso — na teia social. Dessa maneira, essa problemática urge ser solucionada para que o princípio da alemã seja validado no país tupiniquim.

Portanto, são essenciais medidas operantes para a reversão do estigma associado às doenças mentais na sociedade brasileira. Para isso, compete ao Ministério da Saúde investir na melhora da qualidade dos tratamentos a essas doenças nos centros públicos especializados de cuidados, destinando mais medicamentos e contratando, por concursos, mais profissionais da área, como psiquiatras e enfermeiros. Isso deve ser feito por meio de recursos autorizados pelo Tribunal de Contas da União – órgão que opera feitos públicos – com o fito de potencializar o atendimento a esses pacientes e oferecê-los um tratamento eficaz. Ademais, palestras devem ser realizadas em espaços públicos sobre os malefícios das falsas concepções de prazer e da importância do acolhimento dos vulneráveis. Assim, os ideais inalcançáveis não mais serão instrumentos segregadores e, finalmente, a cotação de Fleck não mais representará a dos brasileiros.”

3) Redação nota 1.000 de Aécio Fernandes, RN

Fonte: G1

Manoel de Barros, grande poeta pós-modernista, desenvolveu em suas obras uma “teologia do traste”, cuja principal característica reside em dar valor às situações frequentemente esquecidas ou ignoradas. Segundo a lógica barrosiana, faz-se preciso, portanto, valorizar também a problemática das doenças mentais no Brasil, ainda que elas sejam estigmatizadas por parte da sociedade. Nesse sentido, a fim de mitigar os males relativos a essa temática, é importante analisar a negligência estatal e a educação brasileira.

Primordialmente, é necessário destacar a forma como parte do Estado costuma lidar com a saúde mental no Brasil. Isso porque, como afirmou Gilberto Dimenstein, em sua obra “Cidadão de Papel”, a legislação brasileira é ineficaz, visto que, embora aparente ser completa na teoria, muitas vezes, não se concretiza na prática. Prova disso é a escassez de políticas públicas satisfatórias voltadas para a aplicação do artigo 6 da “Constituição Cidadã”, que garante, entre tantos direitos, a saúde. Isso é perceptível seja pela pequena campanha de conscientização acerca da necessidade a saúde mental, seja pelo pouco espaço destinado ao tratamento das doenças mentais nos hospitais. Assim, infere-se que nem mesmo o princípio jurídico foi capaz de garantir o combate ao estigma relativo a doenças psíquicas.

Outrossim, é igualmente preciso apontar a educação, nos moldes predominantes no Brasil, como outro fator que contribui para a manutenção do preconceito contra as doenças psiquiátricas. Para entender tal apontamento, é justo relembrar a obra “Pedagogia da Autonomia”, do patrono da educação brasileira, Paulo Freire, na medida em que ela destaca a importância das escolas em fomentar não só o conhecimento técnico-científico, mas também habilidades socioemocionais, como respeito e empatia. Sob essa ótica, pode-se afirmar que a maioria das instituições de ensino brasileiras, uma vez que são conteudistas, não contribuem no combate ao estigma relativo às doenças mentais e, portanto, não formam indivíduos da forma como Freire idealiza.

Frente a tal problemática, faz-se urgente, pois, que o Ministério Público, cujo dever, de acordo com o artigo 127 da “Constituição Cidadã”, é garantir a ordem jurídica e a defesa dos interesses sociais e individuais indisponíveis, cobre do Estado ações concretas a fim de combater o preconceito às doenças mentais. Entre essas ações, deve-se incluir parcerias com as plataformas midiáticas, nas quais propagandas de apelo emocional, mediante depoimentos de pessoas que sofrem esse estigma, deverão conscientizar a população acerca da importância do respeito e da saúde mental. Ademais, é preciso haver mudanças escolares, baseadas no fomento à empatia, por meio de debates sobre temas socioemocionais.

*

Gostou do texto? Então, vale a pena ler também: