Língua Portuguesa e Literatura

Tag: letramento

Como a tecnologia pode ajudar na alfabetização

O que a carteira em sala de aula tem a ver com um mundo hiperconectado? Muito pouco, sem dúvida. Talvez quase nada… Afinal, o mundo mudou, alunos e professores mudaram, a dinâmica das interações não é mais a mesma dentro e fora da escola.

Sobretudo depois da pandemia, quem imagina ser possível retornar à escola sem ter um novo olhar sobre as coisas?

Nesse cenário, é crucial que o professor perceba o quanto a tecnologia pode ser uma aliada na mediação do conhecimento e como o interesse é um motor superpotente para a aprendizagem. Então, não há como dissociar a educação – não só a alfabetização, mas o letramento, em particular – de como o mundo se encontra hoje, com tantos bites e bytes, gigas e “gês” rolando por aí.

Em 2020, 92% das crianças e adolescentes brasileiros de 10 a 17 anos viviam em domicílios com acesso à internet, segundo o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br). A proporção foi menor (82%) para indivíduos das classes D e E. Porém é importante ressaltar que a inserção de recursos tecnológicos no ambiente educacional, por si só, não garante que o estudante absorva o conhecimento.

O que pode trazer esse resultado é a maneira como o professor promove a articulação entre as ferramentas e conteúdos curriculares. E, diga-se, isso pode ser um enorme desafio para ele, que vai confrontar suas habilidades com os alunos nativos digitais.

Continue reading

Analfabetismo funcional – conceito e cenário no Brasil

Nada leva a crer que uma das grandes mazelas do Brasil, o analfabetismo funcional, esteja hoje melhor que em 2018, quando foram divulgados os dados do Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf). Naquele ano, a parcela de brasileiros classificados como analfabetos funcionais era de 29%, uma queda de dez pontos percentuais na comparação com o ano de 2001. O Inaf também revelou a redução no número de analfabetos: de 12% para 8%.

No Brasil, o analfabetismo funcional é atribuído aos indivíduos com mais de 20 anos que não completaram quatro anos de estudo formal. Quem é analfabeto funcional lê, mas não consegue extrair sentido das palavras. Também não é capaz de se expressar pela escrita. No fundo, nisso tudo ele se assemelha muito a quem não foi alfabetizado.

O resultado do Inaf é alarmante, e a baixa qualidade do ensino parece ser o principal entrave para a erradicação do analfabetismo no país. Indício forte disso é que, dos 71% de brasileiros funcionalmente alfabetizados, apenas 12% são considerados proficientes em português e matemática.

A dificuldade de compreensão dos gêneros textuais, mesmos os mais simples e mais cotidianos, bloqueia o desenvolvimento intelectual, pessoal e profissional do indivíduo. Por isso é triste constatar a enorme parcela de indivíduos tecnicamente alfabetizados que ainda enfrentam dificuldades na compreensão de textos e na resolução de problemas simples matemáticos.

Classificações de proficiência da alfabetização

O Instituto Paulo Montenegro, responsável pelo Inaf, separa a alfabetização em dois grandes grupos: o de analfabetos funcionais e os de indivíduos funcionalmente alfabetizados.

O grupo de analfabetos funcionais divide-se também em dois:

  • analfabetos;
  • rudimentares.

O primeiro é formado por quem não consegue realizar atividades simples que envolvam a leitura de palavras e frases curtas. No segundo estão os que entendem as informações explícitas de um texto curto, como bilhetes e anotações, lê números simples e usuais e realiza operações matemáticas simples, como contar o troco.

Os funcionalmente alfabetizados dividem-se em três:

  • elementares;
  • intermediários;
  • proficientes.

O elementar está só um passo à frente do analfabeto rudimentar por conseguir ler e compreender textos de tamanho médio e resolver problemas matemáticos que contenham sequências, gráficos e tabelas simples.

Só é classificado como proficiente quem lê textos complexos, faz análises das partes do texto com conhecimentos cotidianos ou de maior especificidade, compara informações e distingue os diferentes tipos de texto e formas de escrita. Este também é capaz de diferenciar fatos de opiniões. Em matemática, os proficientes sabem interpretar gráficos e tabelas com muitas variáveis, compreendem escalas e projeções.

O problema é que, conforme o Inaf, o domínio pleno da leitura vem sofrendo queda no Brasil, mesmo entre os que concluíram o Ensino Fundamental ou o Ensino Superior, o que desfaz o mito de que o problema estaria restrito à baixa escolaridade e às camadas de baixa renda.

De acordo com os especialistas, a solução para erradicar o analfabetismo funcional passa pela adoção de métodos de letramento e do esforço conjunto de pais e escola, até porque o letramento é conquistado na prática cotidiana, que envolve não só a leitura de textos, mas também a crescimento de uma visão crítica.

De onde vem o termo

De acordo com o que destacou Vera Masagão Ribeiro, em sua tese “Alfabetismo funcional: referências conceituais e metodológicas para a pesquisa”, o termo alfabetismo funcional foi cunhado nos Estados Unidos na década de 1930 e utilizado pelo exército norte-americano durante a Segunda Guerra.

O conceito indicava a capacidade de entender instruções escritas necessárias para a realização de tarefas militares. Já o analfabetismo funcional, por sua vez, “foi utilizado para designar um meio termo entre o analfabetismo absoluto e o domínio pleno e versátil da leitura e da escrita, ou um nível de habilidades restrito às tarefas mais rudimentares referentes à ‘sobrevivência’ nas sociedades industriais”.

Segundo Vera Ribeiro, a ampla disseminação do termo analfabetismo funcional em âmbito mundial “deveu-se basicamente à ação da Unesco, que adotou o termo na definição de alfabetização que propôs, em 1978, visando padronizar as estatísticas educacionais e influenciar as políticas educativas dos países-membros”.

Segundo a Declaração Mundial sobre Educação para Todos, mais de 960 milhões de adultos são analfabetos. A declaração considera o analfabetismo funcional um problema significativo em todos os países industrializados ou em desenvolvimento.

*

Gostou do artigo? Então, vale a pena aprofundar seus conhecimentos com o Guia da Alfabetização.

Alfabetização e letramento: conceitos distintos, mas parceiros

Aprender a reconhecer as letras, sílabas, palavras – o que se chama alfabetização – é como ser iluminado por uma lamparina em meio a uma imensa escuridão. Dá para enxergar alguns palmos ao redor.

Porém, para saber realmente onde se está pisando, quais os riscos, os perigos e as maravilhas que estão por vir, é preciso dispor, se possível, da luz do sol – e a isso dá-se o nome de letramento.

A alfabetização não garante autonomia. O letramento, sim. Este é o passo adiante – melhor ainda pensar que fosse uma caminhada lado a lado, com o processo de letramento despertando o interesse pela língua.

A vontade de aprender mais sobre ela ajuda a aprimorar seu uso fora dos muros da escola, por exemplo, nas redes sociais, no âmbito da família, com os amigos ou em qualquer outro espaço de convivência.

Em outras palavras, alfabetização é um processo que leva a codificar e decodificar a escrita e os números, ou seja, se refere à aprendizagem e ao domínio do código alfabético (escrita). Esse aprendizado envolve conhecer a gramática tradicional, que busca separar o conteúdo das práticas sociais – quem nunca ficou confuso ao se deparar com a definição de “oração subordinada adjetiva” ou de “sujeito oculto”?

Continue reading